Paradoxo da IA: enquanto startups globais faturam bilhões, empresas brasileiras ainda usam a tecnologia de forma superficial

A lista da Forbes, divulgada neste 13 de agosto, destacou as startups americanas com maior potencial para se tornarem os próximos unicórnios (startups avaliadas em US$ 1 bilhão ou mais) do mercado. Das 25 empresas analisadas, 20 têm a inteligência artificial (IA) como núcleo de suas operações, mostrando que a tecnologia não é mais uma promessa, mas um motor de crescimento exponencial.

Entre essas startups estão gigantes como OpenAI, Anthropic e Databricks, avaliadas em dezenas de bilhões de dólares, atendendo desde grandes corporações financeiras e industriais até governos, e atraindo investimentos recordes, como os US$ 10 bilhões da Microsoft destinados à OpenAI.

No entanto, enquanto as empresas com maior potencial de crescimento colocam a inteligência artificial no coração de seus modelos de negócio, o uso cotidiano dessas tecnologias pelas empresas brasileiras ainda revela um cenário bastante distinto. O estudo Panorama de Marketing e Vendas 2025, da RD Station, mostra que apenas 36% das empresas nacionais utilizam a IA de forma avançada em suas operações.

Um percentual considerável, 16%, limita-se a um uso básico, sem perspectivas de expansão, enquanto metade das empresas que aplicam a tecnologia restringe seu uso à criação de conteúdo e planejamento estratégico. Áreas essenciais como análise de dados e relatórios seguem pouco exploradas, dificultando decisões mais precisas e estratégicas. Mesmo com 58% das empresas afirmando usar IA diariamente, metade ainda a emprega de forma superficial, sem aproveitar todo o seu potencial, conforme aponta o relatório.

Em nível macro, pesquisas da F5 mostram que apenas 2% das grandes empresas globais estão plenamente preparadas para escalar a IA com segurança. A maioria se encontra em nível moderado, utilizando ferramentas isoladas, com governança incipiente e vulnerabilidades em ambientes híbridos. Entre as menos preparadas, destacam-se órgãos governamentais e instituições de educação, muitas vezes limitados por burocracia e regulamentações.

Principais barreiras à implementação nos negócios e caminhos para superá-las

A adoção da inteligência artificial nas empresas brasileiras enfrenta desafios que vão além da tecnologia. A falta de infraestrutura adequada, a escassez de profissionais qualificados e a baixa governança de dados estão entre os principais obstáculos.

Marcelo Ramos, diretor de desenvolvimento backend e co-founder Go X Tech Hub, observa que a barreira não é apenas técnica. Para ele, o avanço esbarra “mais em questões culturais e estruturais do que propriamente tecnológicas”, como a percepção equivocada de que a IA é restrita a grandes corporações e o temor de que ela substitua empregos.

Outro entrave é a qualidade e integração dos dados. No Brasil, informações críticas frequentemente estão dispersas entre sistemas legados e nuvens híbridas, o que dificulta análises estratégicas. Segundo o entrevistado, a ausência de políticas claras de governança e segurança de dados freia especialmente setores altamente regulados, que acabam limitando o uso da IA a funções superficiais.

A mentalidade do usuário também desempenha papel relevante. Vítor Moura, diretor de desenvolvimento frontend e co-founder Go X Tech Hub, aponta que muitas pessoas abandonam o uso da IA por acreditarem que precisarão “explicar demais” para obter bons resultados. Essa visão, segundo ele, leva profissionais a perderem tempo e deixarem de potencializar ideias e projetos.

Para ambos, o caminho passa por investimentos coordenados. No campo técnico, é essencial fortalecer a infraestrutura, com apoio de soluções em nuvem e parcerias estratégicas, e garantir a centralização e organização de dados. No campo humano, capacitar equipes e fomentar uma cultura de inovação reduz resistências internas.

Além disso, adequar-se à Lei Geral de Proteção de Dados e adotar práticas de segurança cibernética robustas são medidas indispensáveis. “Só assim a IA deixará de ser uma ferramenta marginal e passará a atuar no coração da estratégia empresarial”, conclui Marcelo.

Apesar dos entraves, os dois especialistas concordam que empresas que investirem agora terão vantagem competitiva no médio e longo prazo, transformando a IA de promessa distante em diferencial real.

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