A inteligência artificial já deixou de ser um assunto restrito a especialistas ou equipes de tecnologia. Hoje, ela aparece nas reuniões, nos planejamentos, nos processos seletivos, nas campanhas de marketing, na análise de dados e nas decisões operacionais.
Esse movimento não acontece por acaso. Em 2026, dois dos maiores eventos globais, o SXSW 2026 e a NRF Retail’s Big Show 2026, principal encontro mundial do varejo, reforçaram a centralidade da IA nas transformações atuais. Em comum, os debates destacaram não apenas o avanço tecnológico, mas a necessidade de torná-la mais humana, acessível e aplicada na prática.
O tema ganhou espaço com rapidez e passou a ser tratado como uma competência importante em diferentes áreas das organizações. Mas, apesar da popularização, uma pergunta continua em aberto. As organizações estão realmente preparadas para usar a IA de forma estratégica?
O relatório Tendências em Gestão de Pessoas 2026, do Great Place to Work Brasil, mostra que a IA já aparece entre as prioridades estratégicas das organizações na América Latina. O contraste revela um paradoxo cada vez mais visível no mercado, a tecnologia está em evidência, mas a estrutura para transformá-la em valor real ainda não acompanha a mesma velocidade.
Na prática, muitas empresas falam sobre inovação, produtividade e transformação digital, mas ainda operam sem estratégia de capacitação, sem prioridades definidas e, muitas vezes, sem liderança preparada para conduzir essa mudança. O resultado é um uso fragmentado da tecnologia, limitado à automação de tarefas ou à aceleração de entregas, sem gerar aprendizado, ganho estratégico ou mudança estrutural.
Para Wesley Araújo, sócio da Go X Tech Hub, Desenvolvedor Back-end e Gestor de Projetos, esse movimento já está desenhando uma nova divisão no mercado entre quem começa a agir e quem continua adiando decisões. “Há algum tempo, houve resistência das empresas em migrar para o digital. E, nesse processo, quem ficou para trás, quem demorou a entrar no digital, perdeu tempo. Hoje, com a IA, algumas empresas também estão nessa mesma situação. Quem não se atualiza, fica para trás”, afirma.

Na avaliação do especialista, o erro de muitas organizações está em enxergar a inteligência artificial apenas como uma ferramenta operacional, quando o verdadeiro diferencial está em conectá-la aos processos e aos objetivos do negócio.
Segundo ele, o primeiro passo não é sair adotando tudo ao mesmo tempo, mas entender onde a tecnologia pode gerar impacto real. “Existem muitas ferramentas hoje que o empresário precisa utilizar. Mas ele precisa entender uma coisa: primeiro, é necessário mapear quais são os processos repetitivos que existem dentro da empresa”, explica.
Esse raciocínio ajuda a distinguir dois níveis de adoção. No uso operacional, a empresa aplica IA para executar tarefas de forma mais rápida. No uso estratégico, ela passa a analisar gargalos, revisar fluxos, orientar decisões e criar inteligência sobre o próprio funcionamento. É essa segunda camada que tende a produzir vantagem competitiva.
Enquanto muitos ainda discutem, quem já está aplicando IA de verdade?
Dentro da Go X Tech Hub, Wesley afirma que esse movimento já está sendo colocado em prática por meio de soluções voltadas ao ambiente comercial. “Hoje, na Tech Hub, estamos desenvolvendo um sistema que utiliza inteligência artificial para, por exemplo, analisar as conversas em um processo de vendas online”.
Segundo ele, a tecnologia está sendo implementada para identificar por que uma venda aconteceu ou não, onde estão os gargalos e quais abordagens podem melhorar o desempenho do vendedor. “Isso já deixou de ser apenas uma ideia. Estamos implementando essa solução com IA dentro de uma ferramenta própria e, em breve, vamos ofertá-la ao mercado”, afirma.
O exemplo mostra que a inteligência artificial pode deixar de ser apenas uma promessa genérica e passar a atuar como apoio direto à gestão, à produtividade e à tomada de decisão. Quando isso acontece, a tecnologia não entra apenas para automatizar, mas para ajudar a empresa a compreender melhor seus próprios processos.
Mas o uso estratégico da inteligência artificial não se limita à otimização de processos. Ele também pode ampliar a forma como o conhecimento é compartilhado. Outro exemplo dentro da Go X Tech Hub é o desenvolvimento de uma IA baseada no repertório da empresária e estrategista Carine Paiva. A solução foi construída a partir de conteúdos autorais e consumidos, como livros, vídeos e experiências da própria especialista.
Segundo Wesley, a proposta foi transformar esse conhecimento em uma assistente acessível. “Hoje, qualquer pessoa pode conversar com ela pelo WhatsApp, e ela responde com base nesse repertório, como se fosse a própria Carine”, explica.
Batizada de “Érica”, a ferramenta orienta usuários em temas como mentalidade, vendas e estratégia, e segue sendo constantemente atualizada com novos conteúdos. Na prática, ela mostra como o conhecimento de uma pessoa pode ganhar escala com a IA, alcançando mais gente sem perder sua essência.
A adoção da inteligência artificial não depende apenas do time de tecnologia. Ela exige preparo da liderança, atualização de processos, revisão de fluxos e desenvolvimento de uma cultura organizacional orientada ao aprendizado. Quando isso não acontece, a tecnologia até entra, mas a empresa não evolui junto. É por isso que a formação em IA aplicada aos negócios tem ganhado cada vez mais relevância.
Nesse processo, escolas de negócios, ecossistemas de inovação e hubs especializados passam a assumir um papel estratégico ao traduzir a tecnologia para a rotina corporativa e preparar profissionais para agir com mais segurança. A expansão da inteligência artificial não representa apenas uma mudança tecnológica. Ela representa uma mudança de mentalidade.
No fim das contas, a inteligência artificial, sozinha, não torna uma empresa mais inteligente. O que faz essa diferença é a capacidade das pessoas de entender, aplicar e decidir melhor com o apoio dela. E essa capacidade não surge por acaso. Ela se desenvolve com método, contexto e qualificação.
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