A crise de grandes varejistas mostra como mudanças no custo do crédito podem transformar decisões de expansão em fragilidade financeira.
Durante alguns anos, o dinheiro ficou excepcionalmente barato no Brasil.
Em 2020, a Selic chegou a 2% ao ano, o crédito se tornou mais acessível e empresas encontraram um ambiente favorável para financiar estoques, abrir novas unidades, fazer aquisições e acelerar planos de expansão. O consumidor também tinha mais facilidade para financiar compras.
Crescer parecia, em muitos casos, a decisão óbvia.
Porém, o cenário mudou. Com a elevação dos juros, decisões tomadas em um ambiente de capital barato passaram a carregar outro peso. Uma análise recente da CNN Brasil mostrou o tamanho dessa mudança no varejo. Desde o início de 2020, enquanto o Ibovespa avançou 44,2% no período analisado, o ICON, índice ligado ao consumo, caiu 49,4%. Como temos acompanhado, algumas das maiores varejistas brasileiras perderam mais de 95% de seu valor de mercado.
Não existe uma explicação única para trajetórias tão diferentes. Há empresas com problemas operacionais, mudanças competitivas, margens pressionadas e estruturas financeiras particulares. Ainda assim, uma variável atravessa boa parte dessa história: o preço do dinheiro mudou.
Empresas também são construídas para determinados cenários
Toda estratégia empresarial parte de algumas premissas, mesmo quando elas nunca foram colocadas no papel:
O cliente continuará comprando.
A margem continuará suficiente.
O fornecedor manterá determinadas condições.
O crédito permanecerá disponível.
A economia não mudará radicalmente de direção.
Enquanto essas premissas permanecem verdadeiras, decisões tomadas anos antes parecem corretas. O problema começa quando uma condição temporária é tratada como permanente.
Veja bem, uma expansão pode fazer sentido enquanto as vendas crescem 20% ao ano. Uma nova unidade pode parecer excelente quando o custo do capital é baixo. Um estoque maior pode parecer uma oportunidade em um mercado aquecido. Quando o ambiente muda, a mesma estrutura pode produzir um resultado completamente diferente.
Foi o que aconteceu com parte do varejo brasileiro. Empresas que ampliaram sua alavancagem durante o período de juros baixos passaram a carregar despesas financeiras muito maiores quando o custo do dinheiro subiu. Ao mesmo tempo, o consumidor também encontrou crédito mais caro, pressionando a demanda e aumentando a dificuldade de financiar determinadas compras.
A empresa, então, passa a sofrer dos dois lados. Paga mais pelo dinheiro que utiliza e vende para um consumidor que também está pagando mais pelo dinheiro que precisa.
O crescimento também consome caixa
Existe uma ideia que parece contraditória à primeira vista: uma empresa pode vender mais e, ao mesmo tempo, ficar financeiramente mais frágil.
Imagine um negócio que precisa comprar mercadoria hoje, pagar fornecedores em 30 dias e recebe boa parte das vendas em 60. Quanto mais essa empresa vende, mais dinheiro precisa colocar na operação antes de receber de volta.
O crescimento aumenta faturamento, mas também aumenta estoque, folha, impostos, necessidade de capital de giro e exposição financeira. Se margem e prazo não estiverem bem controlados, vender mais pode aumentar a necessidade de crédito.
Isso não transforma a dívida em vilã. Capital é uma ferramenta empresarial e pode financiar expansões extremamente saudáveis. A questão é entender o que existe do outro lado daquele dinheiro.
Se a empresa toma crédito para financiar uma operação rentável, capaz de gerar caixa suficiente para remunerar o capital e ainda produzir retorno, existe uma lógica econômica. Se o dinheiro novo serve repetidamente para cobrir uma operação que não consegue pagar a própria estrutura, o crédito está apenas adiando um problema.
Essa diferença nem sempre aparece olhando apenas para faturamento.
O teste que deveria vir antes da expansão
Talvez uma das perguntas mais úteis antes de abrir uma nova unidade, contratar uma estrutura maior ou assumir uma dívida seja simples:
Essa decisão continuaria fazendo sentido se o cenário piorasse?
Não significa administrar uma empresa esperando sempre pelo pior. Significa entender quais premissas sustentam uma decisão.
O que aconteceria se as vendas caíssem 15%? E se o prazo de recebimento aumentasse? Se um dos maiores clientes saísse? Se a margem diminuísse dois pontos percentuais? Se o estoque demorasse mais para girar? Se o crédito ficasse ainda mais caro?
Planejamento de cenários não existe para descobrir exatamente qual dessas situações acontecerá. Ele existe para revelar quais delas a empresa não conseguiria suportar.
Essa é uma diferença importante entre crescimento e crescimento sustentável. O primeiro olha principalmente para aquilo que pode acontecer se tudo der certo. O segundo também considera o que a empresa fará quando alguma premissa deixar de funcionar.
O que o varejo ensina para uma PME
Casos recentes de grandes varejistas brasileiras ajudam a tornar essa discussão visível. Empresas conhecidas nacionalmente tiveram de renegociar bilhões de reais em obrigações ou recorrer a mecanismos de recuperação financeira. Cada situação possui causas próprias e seria simplista atribuir todos esses problemas exclusivamente aos juros.
O aprendizado para uma pequena ou média empresa está em outro lugar.
Não é necessário chegar a bilhões de reais em dívida para descobrir que uma estrutura ficou grande demais para o caixa disponível. Isso pode acontecer em uma loja que abriu a segunda unidade cedo demais, em uma indústria que ampliou estoque sem acompanhar o giro ou em uma empresa de serviços que aumentou a folha esperando uma demanda que não se confirmou.
A escala muda, mas a lógica financeira, nem tanto.
Quanto maior a empresa se torna, mais perigoso é depender de uma única versão do futuro.
Crescer é também construir resistência
Empresários são naturalmente treinados para enxergar oportunidade. Abrir mercados, contratar pessoas, aumentar vendas e expandir fazem parte da lógica de quem constrói negócios.
Talvez maturidade empresarial também exija desenvolver outra capacidade: saber até onde a empresa consegue continuar funcionando quando o ambiente deixa de colaborar.
O dinheiro pode voltar a ficar mais barato. A demanda pode melhorar. O crédito pode novamente favorecer investimentos e expansão.
Mas talvez uma empresa realmente saudável seja aquela que não precisa que todas essas condições permaneçam favoráveis para continuar sendo uma boa empresa.
Por isso, antes de perguntar apenas “quanto podemos crescer?”, existe outra pergunta que merece entrar na reunião.
Sua empresa ainda cresceria se o dinheiro ficasse caro?
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