Quando o problema não é contratar, mas fazer as pessoas quererem ficar

Pesquisa com jovens brasileiros coloca respeito, pressão e ambiente de trabalho no centro da discussão sobre retenção.

Imagine a cena: Uma empresa abre uma vaga, recebe currículos, entrevista candidatos, escolhe alguém, treina a nova pessoa e espera que ela permaneça tempo suficiente para que o investimento comece a produzir resultado.

Alguns meses depois, começa tudo novamente.

O diagnóstico mais rápido costuma apontar para o mercado de trabalho. Está difícil contratar. Os jovens não ficam. As novas gerações têm outra relação com emprego.

Uma pesquisa divulgada nesta semana pela Fundação Itaú sugere que a história é um pouco mais complexa.

Seis em cada dez brasileiros entre 16 e 29 anos disseram que aceitariam ganhar menos para trabalhar em um ambiente menos estressante. Ao mesmo tempo, 64% continuam apontando remuneração como o principal fator na escolha de um emprego.

Não existe contradição aí. Salário ajuda alguém a entrar. O ambiente pode decidir se essa pessoa fica.

Entre os jovens que trabalham ou já trabalharam, 69% afirmaram já ter deixado voluntariamente um emprego. O motivo mais citado foi falta de respeito ou tratamento inadequado por parte de líderes e chefes.

O custo que não aparece na folha

Quando alguém pede demissão, a empresa não perde apenas aquela pessoa.

Perde parte do tempo investido em seleção, integração e treinamento. Redistribui atividades entre quem permaneceu. Abre uma nova seleção. Coloca outro profissional em curva de aprendizagem.

Dependendo da função, perde também contexto.

Conhecimento sobre clientes, atalhos operacionais, relações construídas e detalhes que nunca chegaram a virar processo saem pela porta junto com o funcionário.

Por isso, turnover não deveria ser tratado exclusivamente como um indicador de Recursos Humanos.

Ele também pode funcionar como indicador de gestão.

Cobrança e respeito não são opostos

A leitura fácil desses dados seria concluir que uma nova geração rejeita pressão ou responsabilidade.

Isso seria pouco útil.

Empresas existem para entregar resultados. Metas fazem parte do trabalho. Cobrança também. A discussão relevante é sobre como essa cobrança acontece.

Uma organização pode possuir metas altas e lideranças respeitosas. Pode exigir desempenho e oferecer clareza. Pode corrigir um erro sem humilhar quem o cometeu.

Da mesma maneira, um ambiente aparentemente descontraído pode ser péssimo para trabalhar caso existam decisões arbitrárias, favoritismo, ausência de direção ou líderes incapazes de conversar sobre desempenho.

Cultura não é o conjunto de benefícios disponíveis no escritório, mas aquilo que acontece quando existe um problema.

A liderança aparece mesmo quando não está na sala

Em empresas menores e médias, a cultura costuma carregar muito da personalidade de quem lidera.

Se o dono interrompe constantemente, gestores aprendem que interromper é aceitável.

Se decisões são alteradas conforme o humor do dia, a equipe aprende que planejamento vale pouco.

Se somente erros recebem atenção, as pessoas aprendem a esconder problemas.

Se toda decisão precisa subir até o empresário, os gestores deixam de desenvolver musculatura decisória.

Depois de algum tempo, aquilo que parecia uma característica pessoal se transforma em sistema operacional da empresa.

Por isso, desenvolver liderança não significa apenas oferecer treinamento aos coordenadores.

Às vezes o primeiro líder que precisa ser desenvolvido é o próprio dono.

Talvez a pergunta esteja errada

Há empresas tentando resolver turnover melhorando recrutamento.

Isso pode ser necessário, mas existe um limite para aquilo que um processo seletivo consegue corrigir. Nenhuma seleção encontra candidatos capazes de compensar indefinidamente uma liderança ruim.

Por isso, quando uma empresa registra saídas frequentes, vale acompanhar quem está indo embora, em quanto tempo, de quais áreas, sob quais gestores e por quais motivos.

Uma entrevista de desligamento bem conduzida pode revelar muito mais sobre a organização do que uma pesquisa genérica de clima.

O objetivo não é transformar toda demissão em culpa da empresa. Pessoas saem por dezenas de razões legítimas.

O ponto é procurar padrões.

Quando diferentes profissionais contam versões semelhantes da mesma história, talvez já não seja uma história individual.

A empresa abriu uma vaga.

Contratou alguém.

Treinou.

Perdeu.

Antes de abrir novamente a mesma vaga, talvez exista uma pergunta mais barata e mais importante para responder.

Por que tanta gente continua escolhendo sair?

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