Morango do amor: como uma receita virou fenômeno e revelou os padrões de consumo da geração digital

Entre a carência emocional e o desejo por pertencimento digital, o sucesso do morango do amor aponta tendências de comportamento e oportunidades valiosas para marcas que sabem ler o algoritmo.

Feito com um morango fresco, brigadeiro e uma calda vermelha de açúcar que endurece e forma uma casquinha crocante, o morango do amor é o novo hype das redes sociais. Embora ele não tenha uma história de criação oficial, esta receita é uma clara adaptação do clássico doce de festa junina a maçã do amor, que também não tem um local certo de criação, alguns dizem que foi criado nos Estados Unidos, outros dizem que foi na Espanha e até no Brasil, especificamente em São Paulo.

O fenômeno já domina as redes sociais há dias, mobilizando milhões de brasileiros em busca de um doce que custava poucos reais e, rapidamente, se transformou em item de desejo, com alta demanda em docerias e preços que chegaram a R$ 20 por unidade.

A explosão do morango do amor nas redes sociais chamou a atenção de analistas de marketing digital e comportamento do consumidor, que veem no fenômeno muito mais do que uma simples tendência gastronômica. Para Carine Paiva, especialista em mentalidade empreendedora e CVO do Ecossistema Go X, o caso revela padrões profundos sobre a sociedade contemporânea e oferece lições valiosas para empresas que querem surfar nas ondas virais.

O padrão comportamental por trás da febre

“É um padrão comportamental. Reflete uma sociedade ansiosa, carente, que busca pertencimento a qualquer custo e tenta preencher um vazio emocional com futilidades”, analisa Carine.

A especialista observa que vivemos em uma era onde qualquer conteúdo tem potencial para viralizar automaticamente porque esta geração é “dependente emocionalmente de visualização, curtida, de pertencimento”. O morango do amor se tornou, assim, mais do que um doce, virou um símbolo de uma tendência de inclusão social digital.

Alguns dados ajudam a explicar essa tendência. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a proporção de pessoas com 10 anos ou mais que utilizaram a internet no Brasil subiu de 87,2% em 2022 para 88% em 2023, o que evidencia como o ambiente digital está cada vez mais presente na rotina da população.

Paralelamente, estudos de comportamento digital apontam que a busca por validação online influencia diretamente decisões de consumo. É o que mostra o artigo Analyzing the effects of influencer marketing on consumer behavior: Insights from social influence theory in TikTok Campaigns, publicado no World Journal of Advanced Research and Reviews. O estudo destaca a chamada influência normativa, quando indivíduos aderem a tendências não por convicção, mas por desejo de pertencimento. Essa forma de influência atua como uma pressão social invisível, levando as pessoas a participar de movimentos virais apenas para se sentirem parte de um grupo.

“As pessoas fazem de tudo hoje para conseguir esse morango, principalmente para tirar uma foto, gravar um vídeo e mostrar que estão com o tal morango da vez”, observa Carine. Esse comportamento revela o quanto as redes sociais influenciam decisões cotidianas, muitas vezes não pelo valor real do conteúdo, mas pelo simples desejo de pertencimento. “No fundo, é sobre se encaixar, sobre fazer parte do grupo que viralizou aquele comportamento”, completa.

Esse comportamento se reflete em dados práticos: segundo uma pesquisa da Adweek/Morning Consult, 49% dos usuários do TikTok afirmaram já ter comprado produtos após vê-los divulgados na plataforma.

O fenômeno do morango do amor é um exemplo claro dessa dinâmica.

O que era uma produção menor de docerias se transformou em demanda significativamente maior, com consumidores enfrentando filas e pagando preços premium, “Isso mostra mais uma vez o quanto o marketing influencia e o quanto as pessoas estão dispostas a serem influenciadas”, analisa Rafael Pinheiro, especialista de marca. “Quando surgiu essa tendência, foi uma pessoa ensinando a fazer uma receita e acabou se tornando algo tão bonito que outras pessoas começaram a replicar”, finalizou.

A anatomia de uma viralização

O processo que transformou uma receita caseira em febre nacional não aconteceu por acaso. Segundo Jéssyca Vasconcelos, gerente de eventos do Ecossistema Go X, o surgimento de uma tendência pode até ser espontâneo, mas segue padrões identificáveis. “É como plantar uma semente. Às vezes, você faz um vídeo de forma despretensiosa e, se aquilo chama a atenção de alguém, começa a se replicar naturalmente”, explica. No caso do morango do amor, tudo começou quando uma pessoa com poder de influência compartilhou o produto. A partir daí, outras pessoas passaram a imitá-la, impulsionadas pelo desejo de parecer semelhantes e fazer parte do mesmo movimento.

O algoritmo do Instagram funcionou como combustível para a explosão. A plataforma identificou o interesse crescente pelo tema e passou a impulsionar organicamente conteúdos relacionados, criando um ciclo de feedback positivo que alimentou ainda mais a demanda. “O algoritmo do Instagram, neste momento, está priorizando temas como política, Bolsonaro, Trump, taxações, e agora também o morango. Ele identifica esses assuntos em alta e amplia o alcance dos conteúdos relacionados, distribuindo-os organicamente para uma audiência cada vez maior”, detalha Carine.

A oportunidade de ouro para as empresas

Para empreendedores atentos, o morango do amor representa uma lição valiosa sobre como aproveitar tendências virais de forma estratégica. Carine orienta que qualquer negócio pode se beneficiar dessas ondas digitais: “É importante identificar o que está em alta no momento e adaptar essa tendência ao seu negócio. Dessa forma, você ganha mais visibilidade, amplia sua audiência e humaniza sua presença nas redes sociais.”

A eficácia dessa estratégia está na atenção à curiosidade do público: “Quando todos estão interessados e buscando informações sobre o morango, qualquer conteúdo relacionado a ele atrai visitantes ao seu perfil, despertando interesse e gerando engajamento, o que pode resultar em oportunidades comerciais.”

Um exemplo prático dessa aplicação é o perfil @triovital_dental, direcionado a dentistas, que viralizou ao ensinar um procedimento odontológico usando a estética do morango do amor. Carine explica: “O profissional demonstra como realizar um canal, ilustrando o procedimento com a aparência do morango. Isso prende a atenção do público, que deseja acompanhar o resultado final.”

O vídeo ultrapassou 1,3 milhão de visualizações, demonstrando que profissionais de diversas áreas podem adaptar tendências para atrair audiência, gerar engajamento e promover seus serviços.

A CVO também enfatiza a importância de aplicar o padrão da repetição sempre que um conteúdo viraliza. “Se um vídeo seu viraliza e apresenta um bom engajamento, o que você precisa fazer? Nós ensinamos que é fundamental criar novas versões com a mesma ideia para potencializar esse crescimento.”

Carine reforça que o foco inicial deve estar no aumento da audiência: “Primeiro você cresce a audiência, qualifica esse público e então realiza as vendas. Quanto mais leads, maior a oportunidade de negócios.” Ela finaliza orientando: “Isso é visão estratégica: identificar o que está em alta no momento, adaptar essa tendência ao seu negócio e aplicá-la de forma consistente.”

O reflexo de uma sociedade em transformação

Enquanto para o mercado o fenômeno representa oportunidades de negócios, para a especialista em mentalidade ele revela aspectos que merecem reflexão. Ela identifica na febre do morango do amor sinais de uma sociedade marcada por carências profundas: de afeto, de referências parentais e de valores essenciais.

Essa análise encontra respaldo na área da saúde mental. A psicóloga Alana Nijar, especialista em terapia cognitivo-comportamental, em seu canal do YouTube: “Psicologia na Prática por Alana Anijar”, confirma que “os índices de saúde mental têm apontado para uma geração nova e muito doente emocionalmente, com muitas fragilidades emocionais”. Segundo a profissional, os diagnósticos aumentaram significativamente, com crianças apresentando crises de ansiedade e quadros de depressão que não eram comuns em gerações anteriores.

Nijar identifica fatores específicos que contribuem para essa fragilidade: o excesso de proteção parental, a cultura do sucesso imediato alimentada pelas redes sociais, e a comparação constante que “é enlouquecedora, porque você quer ter tudo que todo mundo tem, você inveja outras realidades”. A psicóloga observa que esta geração tem “muito menos tolerância à frustração do que as gerações mais velhas, com muito mais dificuldade de lidar com desafios, com os problemas do dia a dia”.

Perspectivas para o futuro digital

O fenômeno do morango do amor se soma a uma lista crescente de febres momentâneas, do labubu ao olho grego, que mobilizam multidões em busca de pertencimento digital, como exemplifica Carine. Cada nova tendência oferece insights sobre como funcionam os algoritmos, o comportamento do consumidor digital e as oportunidades de negócio na era das redes sociais.

Para empresas que souberem interpretar esses padrões, cada conteúdo viral representa uma janela de oportunidade para conectar-se com seu público de forma autêntica e relevante. Para consumidores, fica o convite à reflexão sobre os próprios hábitos de consumo e a busca por pertencimento nas plataformas digitais.

A próxima febre pode estar se formando agora mesmo em algum canto da internet. A grande questão é: as marcas estarão prontas para surfar essa onda ou apenas para vê-la passar?

Acompanhe a Carine Paiva e o Ecossistema Go X nas redes sociais:
Instagram – Carine Paiva
Instagram – Ecossistema Go X

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