No Brasil, duas plataformas chinesas vêm redesenhando o cenário do comércio online de moda e acessórios: Shein e Temu. Ambas estão desafiando grandes varejistas nacionais e internacionais com uma combinação de preços baixos, logística eficiente e marketing digital altamente direcionado. O avanço, já consolidado em outros países, continua a ganhar força no mercado brasileiro e gera impactos ainda mais visíveis no varejo tradicional.
Crescimento exponencial
A Shein já figura entre os aplicativos de compras mais baixados do Brasil desde 2022. Em 2024, segundo dados da Similarweb, a plataforma ocupava o 1º lugar em tráfego entre sites de moda no país, superando marcas como Renner, C&A e Zara. Já a Temu, que iniciou suas operações efetivas no Brasil em junho de 2024, rapidamente conquistou destaque no e-commerce nacional, alcançando a quarta posição no segmento e superando até mesmo a Shein em alguns indicadores.
Ambas as plataformas operam com uma estratégia de preços ultracompetitivos, utilizando inteligência artificial para prever tendências e produzir em escala sob demanda. Isso reduz desperdícios e acelera o tempo entre criação e entrega ao consumidor.

Regulação e resistência
O avanço das plataformas chinesas reacendeu o debate sobre a regulação das compras internacionais. Em maio e junho de 2024, a Câmara dos Deputados aprovou a chamada “taxa das blusinhas”, que estabeleceu a cobrança de 20% de imposto de importação para compras de até US$ 50. A medida foi sancionada pela Lei 14.902/24 e entrou em vigor em 1º de agosto de 2024. Para compras entre US$ 50 e US$ 3.000, a alíquota é de 60%, com um desconto fixo de US$ 20.
Com os produtos internacionais mais caros e prazos de entrega mais longos, muitos consumidores passaram a priorizar o varejo nacional. De acordo com o IBGE, as vendas de vestuário no Brasil cresceram 6% no terceiro trimestre de 2024. Grandes redes tiveram desempenho ainda mais expressivo no mesmo período: a Riachuelo registrou aumento de 11% nas vendas, a Renner cresceu 12%, e a C&A apresentou alta de 19%.
A queda progressiva nas importações também beneficiou o comércio eletrônico local. Segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), o e-commerce nacional encerrou 2024 com um crescimento de 10% no faturamento, sinalizando uma migração do consumidor para vendedores brasileiros.
Ainda assim, os varejistas nacionais enfrentam um cenário desafiador. Com estoques robustos e custos operacionais elevados, o setor passa por um processo de adaptação: o fluxo nas lojas físicas diminuiu, e marcas tradicionais intensificaram os investimentos nos canais digitais na tentativa de conter a perda de mercado.
Esse esforço de reinvenção ocorre em meio a uma mudança significativa no comportamento do consumidor brasileiro. A busca por variedade, preço acessível e praticidade tem se sobreposto ao tradicional apego às marcas, especialmente entre os mais jovens. A Geração Z lidera esse movimento, impulsionada por recomendações nas redes sociais e campanhas com influenciadores digitais, fatores que favorecem diretamente plataformas como Shein e Temu.

Varejo nacional em alerta
Esse movimento de reestruturação acontece em paralelo a uma mudança importante no cenário internacional. Com as novas restrições comerciais impostas pelos Estados Unidos e o ritmo mais lento da economia chinesa, o Brasil passou a ser visto como um dos mercados mais promissores pelas gigantes do varejo digital asiático.
Recentemente, o presidente norte-americano Donald Trump revogou uma regra que permitia a entrada de pacotes de até US$ 800 sem taxação. Com isso, a partir de 29 de agosto de 2025, encomendas internacionais passarão a ser tarifadas entre US$ 80 e US$ 200, dependendo do país de origem.
Segundo o The New York Times, esse endurecimento nas relações comerciais entre China e Estados Unidos deve tornar o mercado americano significativamente menos atraente para empresas como Shein e Temu. Por outro lado, analistas destacam que o Brasil surge como alternativa estratégica, não apenas pela relação diplomática mais estável com a China, mas também pelo potencial de consumo. Estimativas indicam que companhias chinesas já investiram cerca de US$ 4,7 bilhões no país.
Essa aposta se reflete, também, no aumento expressivo da presença digital dessas marcas. A Shein, por exemplo, que já produz parte de seus itens no Brasil para abastecer outros países da América Latina, ampliou em 140% seus investimentos em publicidade digital no país em abril de 2025, em comparação com o mesmo período do ano anterior, de acordo com informações do site especializado Reuters. A estratégia visa reforçar a presença da Shein diante da entrada agressiva da Temu, cuja publicidade no Brasil, em abril deste ano, foi 800 vezes maior do que no mesmo período do ano anterior.
Diante desse novo arranjo global, o Brasil tende a ocupar um papel central na estratégia de expansão das plataformas internacionais, o que intensifica a concorrência e exige do varejo nacional mais agilidade, inovação e presença digital para seguir relevante em um cenário cada vez mais competitivo e globalizado.
Desafios à frente
Mesmo com o crescimento acelerado, Shein e Temu não avançam sem obstáculos. No Brasil, questões como logística reversa, sustentabilidade, qualidade dos produtos e regulamentações fiscais seguem como pontos de atenção e devem pressionar suas operações nos próximos anos.
Ainda assim, especialistas apontam que a consolidação dessas plataformas é apenas uma questão de tempo. A combinação de preços competitivos, tecnologia de ponta e estratégias de marketing digital eficazes tem redesenhado as regras do jogo, e as empresas que não conseguirem acompanhar esse novo ritmo podem, em pouco tempo, perder relevância.

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